Greves que se
arrastam durante meses, com professores que se sentem desvalorizados do ponto
de vista financeiro e do social, não se sentido reconhecidos pelo trabalho
importante que desempenham, mesmo diante das mais adversas situações, como
salas de aulas superlotadas, falta de materiais, infraestrutura, violência e
insegurança nas escolas. O quadro do ensino público no Brasil, apesar dos
muitos avanços realizados nos últimos anos, não é dos mais animadores.
Em entrevista ao
programa Espaço Público, da TV Brasil, na noite desta
terça-feira (12), o educador, antropólogo e folclorista brasileiro, Tião
Rocha, diz que o sistema educacional brasileiro precisa ser repensado e que
críticas à Paulo Freire nas manifestações em prol do impeachment de Dilma é uma
demonização de uma figura vinda de uma direita que começou a mostrar a cara.
Assista o Espaço Público com Tião Rocha
na íntegra:
O educador, que teve a honra de
trabalhar com Paulo Freire, defende que uma escola que não se prenda a
currículos rígidos e estruturas físicas, mas que se baseie no afeto e na
valorização do ser humano. Para ele, o modelo educacional
brasileiro precisa ser repensado para se adequar às demandas da sociedade
atual. “O modelo de escolarização que nós temos é incompatível com os desejos
da sociedade, incompatível com o país que a gente precisa. Essa escola está
para trás, ela não avançou. Ela continua indo no modelo do século XIX. Ela se
parece muito com a fábrica, sistema fabril de reprodução; ela se parece com
cadeia, porque tem grade”, diz ele.
Confira alguns trechos da entrevista:
Valorização dos professores
“Se for olhar do ponto de vista salarial, não há nenhum
estímulo. Acho que do ponto de vista da realização pessoal, do compromisso dele
[professor] com a causa é o que mantém e o que faz sentido ele se dedicar. Acho
que ele não espera reconhecimento. Ele gostaria muito, eu acho que eu sinto em
meio aos professores com os quais eu convivo, a vontade de mostrar a sua
capacidade, seu espaço, com liberdade, com competência e que seja garantido a
ele o seu trabalho, a realização do seu ofício. Agora, essa questão da
remuneração, da realização, é uma luta inglória, que vai demorar. E acho que
não é tanto o professor lutar, é o reconhecimento da sociedade que esse cidadão
tem uma importância fundamental na vida de todos nós. E o dia que isso
acontecer, a greve vai acontecer de forma diferente: quando os professores
pararem, os pais dos alunos vão estar ao lado deles. Essa adesão é que é
importante para lutar por um causa.”
Falta de mobilização da sociedade em prol da educação
"Acho que o povo, todos nós queremos educação e os
pais querem a melhor educação para os seus filhos. Mas eles não conseguem
perceber que as escolas garantem isso. Essas escolas estão fechadas em si,
estão em descompasso em relação às necessidades dessas pessoas. Eu sinto isso
em situações de escolas que são depredadas. Recentemente em Belo Horizonte, 104
escolas foram depredadas, houve uma reunião, chamaram a polícia para resolver,
eu participei de uma dessas reuniões, e falei 'por que é que a polícia está
resolvendo a questão da educação?' e eles disseram 'não, é o problema da
violência contra as escolas, a segurança das escolas'. Eu fiz a seguinte
pergunta: 'no bairro onde as escolas foram depredadas, as igrejas também foram
depredadas?' Não. Por que uma comunidade deixa quebrar uma escola e não quebra
uma igreja, se as duas são importantes? É que numa ela vê sentido, faz sentido,
nem que prometa a fé, e o paraíso entrega depois em prestações, não sei como
vai ser. Outra não consegue realizar. Os pais veem que a escola não dá aos
filhos aquilo que gostariam. Esse descompasso é um grande problema."
Greve dos professores e crise educacional
Você tem professores comprometidos com uma causa e ter um
modelo educacional fechado em si mesmo, ensimesmado, descomprometido,
anacrônico, com uma grade curricular – grade, cadeia. Escola ainda tem uma
figura que chama disciplinário. Há uns anos eu falei que a única escola que eu
conhecia nesse país e que nunca teve greve, evasão, briga, confusão, segunda
época – disseram não existe. Eu falei existe: é a escola de samba. Já viram
greve em escola de samba? Crise na escola de samba. As pessoas ficaram muito
indignadas porque achavam que eu estava descomparando. Disseram 'não, escola de
samba é uma bagunça'. Eu disse 'escola de samba não tem disciplinário, tem
diretor de harmonia'. Nós estamos falando de outra coisa, é outra lógica.
[Escola de samba] tem compasso e tem as pessoas envolvidas por uma causa, um
sentindo, convoca as pessoas para alguma coisa. O que eu percebo nisso, com
todo horror que essa greve [em Curitiba], esse movimento teve, jogando bombas e
pitbulls para cima dos professores, absolutamente um absurdo total, é que
precisamos repensar [a escola]. O modelo de escolarização que nós temos é
incompatível com os desejos da sociedade, incompatível com o país que a gente
precisa. Essa escola está para trás, ela não avançou. Ela continua indo no
modelo do século XIX. Ela se parece muito com a fábrica, sistema fabril de
reprodução; ela se parece com cadeia, porque tem grade; ela se parece com um
quartel, porque é tudo em ordem, hierarquizada; ou às vezes se parece com um
hospício, absolutamente esquizofrênica. Como é que ela sai disso? Ela tem que
romper com esse pensar e ir para outro lado: pensar em educação.”
Desafios da escola
“Educação só existe no plural, não existe no singular.
Para que haja educação são necessárias no mínimo duas pessoas: eu e o outro. E
educação não é o que cada um tem, mas aquilo que eles trocam, então é
aprendizagem. É possível fazer educação em qualquer lugar, mas é impossível
fazer boa educação sem bons educadores. Se você tiver bons educadores, você faz
boa educação em qualquer lugar. Não é a questão do espaço físico. Se nós
tivéssemos esses bons educadores comprometidos com o destino desses meninos,
nós poderíamos aproveitar todos. Qual que é o grande desafio? É formar bons
educadores. E o outro desafio da escola é que toda escola deveria ter o
compromisso ético de dizer 'nós não podemos perder um'. Nenhum a menos. Que
todos os meninos que entrarem na escola deveriam aprender, no seu ritmo, tudo o
que eles precisam para serem cidadãos. [Isso] ia mudar a perspectiva. Ela ia
olhar para a criança, pelo potencial da criança, e dar para ela no seu tempo,
no seu ritmo. O que não pode é o menino chegar na escola e a escola já estar
pronta há 500 anos, não importa de onde eles venham. Então, meu manequim é 40,
mas eu uso 42 ou 38. Corta o braço, companheiro! Você tem que se encaixar num
modelo, numa fórmula, numa forma. O problema é que essa forma está tão
cristalizada, que vira formol."
Plano municipal de educação
“A elaboração dos planos é muito fechada. Não há uma
convocação para que as pessoas discutam como é que gostariam que seus filhos
fossem educados. O que eu percebo é que quando os pais percebem que aquela
escola está fazendo a diferença na formação dos seus filhos, eles são os
primeiros a lutar por ela. Construir esse link é o desafio. Precisava quebrar
isso e trazer a comunidade para discutir essa escola. Há 30 anos eu me
perguntava se era possível a gente fazer educação sem escola ou se era possível
fazer boa educação debaixo do pé de manga. E eu descobri que é possível, sim,
fazer boa educação sem escola, que é possível fazer boa educação debaixo do pé
de manga.
Proposta de currículo nacional comum
“Eu acho que é bom e é um perigo. É um perigo por que se isso
vira uma norma para fazer um modelo para ser repassado como regra, você vai
cristalizar e você vai uniformizar. E se uniformiza, você perde a grande
riqueza desse país que se chama diversidade. Nós somos únicos porque somos
diferentes. Então, a mesma lógica não pode ser a de enquadramento de todo mundo
no mesmo padrão. Se nós pensarmos do ponto de vista de um plano nacional que
leve em consideração que nós não podemos perder nenhum, que todos os meninos
devem aprender no seu tempo, que a escola tem que garantir isso, a sociedade
tem que garantir isso, aí sim nós temos uma base curricular que garanta que
esse menino vai aprender."
Caminhos para a educação no Brasil
“Eu acho que a gente precisa estabelecer alguns desafios,
a gente tem um que eu ouvi recentemente que é pensar o Brasil como Pátria
Educadora. (…) Isso não pode ser um slogan. Eu não estou falando de povo, de
governo, estou falando de pátria. (…) Se nós pensarmos nessa pátria e a pátria
amada seja educadora no sentido pleno, como é que a gente faz para que todo um
movimento vá nessa direção? É convocar as pessoas para uma causa. Nós somos
movidos por bandeiras”.
Transformação das comunidades
"A mudança do olhar é a mudança do paradigma. Nós
fomos acostumados a olhar a comunidade pelo lado vazio copo e medir o IDH
[Índice de Desenvolvimento Humano]. Há muitos anos que eu digo não meça o IDH.
Eu não quero chegar na comunidade e olhar o lado de carência. Carentes somos
todos nós. Eu olho pelo IPDH – Índice de Potencial de Desenvolvimento Humano que
está lá. (...) Quando eu olho para a comunidade pelo lado cheio do copo, é isso
o que garante a ela desenvolvimento e transformação. Porque a transformação é
de dentro para fora. Não é de fora para dentro. Essa mudança de perspectiva é
fundamental e quando ela acontece, você percebe nas pessoas isso."
Redução da maioridade penal
“Vejo isso como um equívoco, uma visão de uma miopia
tremenda. É um retrocesso. Mas eu também sou a favor da redução [da maioridade
penal] se no dia em que nós esgotarmos todos os nossos recursos e
possibilidades para não perder nenhum menino, que as escolas nossas cumprissem
sua função social plena, ou seja, não deixar nenhum para trás, o dia que isso
se esgotar, aí eu sou a favor da redução da maioridade [penal]. Mas, como isso
não foi feito ainda, se nós pegarmos o Estatuto da Criança e do Adolescente,
que não foi cumprido ainda, nada, fundamentalmente, porque lá está estabelecido
que ele é a garantia, privilégio, o fator fundamental a essa criança e nós
não garantimos isso, nem nas nossas práticas, nem na nossa conduta. Então, não
adianta. Se nós não cumprirmos enquanto adultos gestores esse compromisso,
não adianta querer mudar para baixar [a maioridade penal], porque é tirar da
gente a responsabilidade enquanto sociedade. Acho isso um equívoco, porque nós
estamos querendo é diminuir o nosso peso, o nosso ônus e jogando a culpa neles
[meninos] o resultado do fracasso. Esse é o grande problema: é quando os
meninos sentem que não conseguem crescer porque a culpa do fracasso dentro da
escola é dele e não da escola ou da sociedade. Aí a autoestima vai baixando e
chega no nível de autodesprezo. E no autodesprezo, companheiro, não tem
solução. No autodesprezo o cara cai num buraco sem fundo. Então, por que os
meninos vão cair no mundo das drogas e não sei o quê? Porque caiu no
autodesprezo. A menos valia da vida, menos sentido. Não permitir isso é
fundamental. Quer dizer, se nós não fizemos ainda nem o bê-á-bá, nós não
podemos fazer isso, reduzir a nossa culpa nesse processo."
Paulo Freire
"Eu tive o privilégio de conhecer e conviver [com o
Paulo Freire]. Nós participamos de um projeto, onde ele era o coordenador em
Poços de Caldas (MG), uma convocatória da cidade para analfabetismo zero, e ele
era o mentor. Foi na volta dele [ao país], depois ele estava em Campinas (SP),
era professor em Campinas. A gente queria discutir a obra dele e estav
discutindo um texto do Antonio Cícero de Souza, que é um lavrador do sul de
Minas falando sobre educação. E ele dizia assim: 'o que o Ciço falou em quatro
horas, eu passei 40 anos para escrever'. E a gente ficava assim [admirada],
pois ele era um cara que ouvia um trabalhador e começava a pensar. Ele foi o
ser humano para mim, do ponto de vista ético, equilibrado, de uma bondade e
generosidade para ouvir, com a voz tranquila e era muito bom, porque não fugia
de nenhuma questão. Então eu tive o privilégio de trabalhar com ele."
Críticas
à doutrinação marxista nas escolas e a Paulo Freire nas manifestações
"Ele [Paulo Freire] sempre foi ligado aos movimentos
populares, de esquerda, que tinham um compromisso com a transformação social e
com a equidade. Então, eu acho que é uma espécie de demonização disso [vindo]
de uma direita que começou a mostrar a sua cara. Eu acho que é um direito que
eles têm [protestar]. Na prática, no nosso trabalho, há 30 anos, eu falo
que, ao contrário do evangelho de São João, que o verbo se fez homem, eu
falo que, no caso do Paulo Freire, o homem se transformou em verbo. Então, há
30 anos para nós o Paulo Freire virou um verbo, que é conjugável e conjugável
só no presente do indicativo: eu 'paulofreiro', tu 'paulofreiras', ele
'paulofreira', nós 'paulofreiramos', vós 'paulofreiras', eles
'paulofreiram'. Não existe o 'paulofreiraria'. Fazer 'paulofreiragem' é usar
todo esse recurso: o outro, o amor ao próximo, a dignidade, o desenvolvimento
das pessoas, é o ser político, integral, é o compromisso ético. Não é um
método, é uma inspiração fantástica. E quando eu vejo esse negócio [críticas a
Paulo Freire nas manifestações], cada vez mais eu quero conjugar esse verbo e
transformá-lo em algo concreto."
A preocupação
com a educação como elemento de transformação social levou Tião Rocha
a desenvolver a chamada "pedagogia da roda", uma experiência
inovadora com seguidores em vários estados brasileiros e em países,
como Moçambique, Angola e Guiné-Bissau, na África, na qual o foco e a
matéria-prima de todo processo de aprendizagem são as pessoas, "seus
saberes, fazeres e quereres", como o educador costuma dizer. Com vários
livros publicados e prêmios recebidos, ele também é o idealizador e
presidente do Centro
Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), na cidade de Curvelo,
em Minas Gerais, uma organização sem fins lucrativos que atua na área de
educação popular com foco na qualidade e no desenvolvimento comunitário
sustentável.
SAIBA MAIS:
Criado em 13/05/15
19h32 e atualizado em 13/05/15 21h30
Por Portal EBC

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